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O futuro da Banca num contexto incerto

Como irá o setor gerir as diferentes forças que se fazem sentir?

O setor bancário enfrenta múltiplos desafios com impacto na rentabilidade e crescimento de volume de negócios. Conheça a perspetiva para o mercado local, com base no Banking & Capital Markets Outlook 2024.
Conheça as perspetivas da Deloitte para Financial Services

O ano de 2023 marcou uma viragem notável para o setor financeiro. Após uma década de taxas de juro praticamente nulas, incluindo sete anos de taxas negativas, o setor confrontou-se com o regresso a taxas de juro positivas relevantes. Enquanto, em 2023, as respostas de gestão foram essencialmente orientadas para a gestão financeira, em 2024, prevemos uma redefinição das prioridades estratégicas herdadas do ciclo anterior.

O ciclo referido assentou num imperativo de modernização tecnológica, tendo por base uma estratégia de crescimento de negócio e de rentabilidade através da maximização da posição competitiva individual de cada banco num mercado demograficamente estanque, mas em expansão de crédito. Esta estratégia assentou nos seguintes pilares:

i) Centricidade do cliente – redesenho das jornadas de interação com o cliente nos vários processos críticos de relação com o banco, para a tornar mais fluída, sem interrupções desnecessárias, minimizando o tempo de tomada de decisão e com uma experiência de interação gratificante.

ii) Hiperpersonalização da relação com o cliente – mudança da relação comercial de venda de produtos de campanha para um modelo de proximidade. Modelo este assente numa capacidade de percecionar as necessidades e preferências dos clientes de forma continuada no tempo e prestar o apoio bancário de produtos e serviços que o cliente precisa em cada momento.

ii)  Maximização do potencial dos dados existentes – todos estes processos evolutivos resultaram de investimentos em novas capacidades tecnológicas de armazenamento, processamento, análise e compreensão de tendências comportamentais

Todo o sistema financeiro iniciou este processo de transformação, estando ainda longe da sua conclusão e da obtenção dos benefícios ambicionados no modelo de serviço, fidelização e alinhamento das expectativas dos clientes. Contudo, se a jornada de modernização não é posta em causa, o cenário atual de taxas de juro mais elevadas, inflação induzida por instabilidade geopolítica, retração económica e introdução de disrupções tecnológicas leva a reconfigurações e a uma reconsideração da agenda para 2024. 

Outlook de Banking & Capital Markets 2024 da Deloitte explora um conjunto de forças disruptivas que impactam a indústria, assim como perspetivas para o próximo ano que irão permitir aos bancos diferenciarem-se e ficarem mais preparados para o futuro. 

 

Do conjunto de insights do nosso estudo, gostaríamos de destacar 5 tendências que irão impactar fortemente a indústria:

 

1. Foco na eficiência para travar a diluição de rentabilidade

Num contexto de combate à inflação e de agravamento de tensões geopolíticas, estima-se um abrandamento da economia global, colocando desafios na capacidade de geração de resultados na indústria bancária.

Em Portugal, esperamos um ano de 2024 com pressão para geração de produto bancário, após um ano de 2023 de rentabilidade histórica.

i) A previsão de descida das taxas de juro em 2024 irá gerar uma pressão sobre a margem financeira, em função da política adotada por cada banco para a subida do preço dos depósitos.

ii) Por outro lado, o abrandamento macroeconómico e o custo de oportunidade do dinheiro deverão originar a uma reduzida procura por crédito à habitação e empresas, limitando, desta forma, o potencial de crescimento orgânico e de renovação do balanço.

iii) No que se refere ao restante produto bancário, não antevemos uma alteração profunda da contribuição das comissões por serviços e produtos, sendo este um modelo já muito desenvolvido pela banca portuguesa na fase anterior de mínimos de taxas de juro, podendo haver algum impacto pela diminuição da atividade económica.

iv) Do ponto de vista do risco de crédito, o sistema financeiro português tem vindo a aumentar a sua cobertura de imparidades, sobretudo com a incorporação de estimativas forward looking para diversos cenários de crises potenciais que se têm observado nos últimos anos.  Adicionalmente, os bancos têm vindo a reforçar os seus processos de monitorização da deterioração creditícia da sua carteira de crédito e a incorporar esses fenómenos nas suas estimativas. Sem um incremento relevante da taxa de desemprego, ou dos processos de insolvência empresariais, não é expectável um contributo relevante do custo por risco de crédito na geração de resultados em 2024. 

Assim sendo, uma das alavancas ativas de geração de rentabilidade passará pelos custos operacionais, sendo antecipável uma pressão para contenção de custos, dado o aumento induzido pela inflação de bens e serviços, e respetiva pressão sobre a estrutura laboral.

 Este contexto, conjugado com a necessidade de investimento para geração de eficiência, poderá introduzir diferentes velocidades nos planos de modernização, criando uma maior distância entre agentes mais avançados no processo de digitalização ou com maior eficiência internalizada face aos restantes.

 

2. Aumento da intensidade concorrencial observada no setor como estratégia de crescimento num mercado estagnado, mas com que compromisso de rentabilidade?

Continuaremos a observar várias iniciativas comerciais para ganhos marginais de quota, assim como pressões externas para a conquista de parte do valor gerado pelo setor. O diferencial de rentabilidade objetivo de cada equipa de gestão poderá incrementar esta dinâmica:

i) Expectável continuação da elevada competição em produtos considerados “core” para captação ou fidelização dos clientes, em particular, nas taxas de juro oferecidas nos depósitos a prazo, nos spreads do crédito à habitação ou nas ofertas para novas aberturas de conta com domiciliação de salário.

ii) Previsível continuação das estratégias muito agressivas de pricing por parte de bancos digitais ou “challenger” (e.g. conta DO sem comissões), com crescimento relevante das bases de clientes destes bancos.

iii) Continuarão a surgir ou a expandir entidades que procuram capturar uma parcela do negócio de pagamentos, por exemplo, providers de Buy Now Pay Later (BNPL) ou outras formas de Embbeded Finance, Digital Wallets dominadas por Big Techs, ou utilização de criptomoedas como método de pagamento.

iv) Continuaremos a ver alguns bancos a reforçar a aposta no desenvolvimento de plataformas de Commerce com parceiros não financeiros, numa estratégia que visa oferecer aos clientes uma proposta de valor alargada e complementar aos produtos bancários.

v) As vagas de “Open Banking” em várias regiões do mundo e a evolução expectável na regulação europeia (e.g. PSD3, FIDA) poderão dar um novo fôlego a um tema que tem evoluído de forma tímida em Portugal.

 

3. A inteligência artificial, não sendo uma novidade na indústria bancária, vai alterar drasticamente os processos bancários pela incorporação das potencialidades da inteligência artificial generativa.

i) Neste caso concreto, o principal desafio de 2024 será encontrar o foco, avaliando os casos de uso com maior impacto percecionado para os processos específicos de cada banco.

ii) Em 2024, é expectável que os bancos foquem os seus investimentos em Generative AI em casos de uso “internos” para busca de ganhos de produtividade. São exemplos disso, a geração ou conversão de código informático, o desenvolvimento de plataformas de acesso a informação para colaboradores, aceleração de reporting interno ou aceleração de processos internos com leitura inteligente de documentos. Pelo contrário, não antevemos, no imediato, uma adoção generalizada em casos de uso que impliquem exposição direta dos Large Language Models (LLMs) aos clientes finais, considerando o relativo desconhecimento da totalidade de implicações que esta tecnologia apresenta.

iii) Adicionalmente, importa referir que, para além dos vários casos de uso em discussão pela indústria, é de fundamental relevância a discussão do impacto desta tecnologia na força de trabalho a médio prazo, quer na sua dimensão, como no mix de competências necessário, assim como o processo de transição.

iv) Como em todos os processos de grande evolução tecnológica na indústria bancária, o potencial de fraude aumenta na mesma proporção. A tecnologia e práticas de deep fake criarão grandes desafios para os agentes bancários, sobretudo, aqueles que aprofundaram o seu modelo de relacionamento digital, o que levará a repensar o modelo de relação, modelo de controlo e modelo operativo/tecnológico.

 

4. A regulação continuará a marcar a agenda das instituições e, apesar de diferenças de horizonte de implementação e de intensidade entre os vários negócios e mercados, a tendência regulatória manter-se-á consistente e com elevado nível de exigência. 

As principais preocupações não se centram na solvência e liquidez do sistema, mas, sobretudo, na capacidade para fazer face à transformação acelerada dos modelos de negócio e à inovação tecnológica:

i) a cobertura de instrumentos financeiros pela esfera de supervisão e regulação, como, por exemplo, criptomoedas e os ativos digitais, destacando-se, no espaço europeu, o MICA;

ii) a necessidade de regular a introdução de evoluções tecnológicas e analíticas disruptivas, nomeadamente, a inteligência artificial, com impactos substanciais mas incertos na tomada de decisão e relação com o cliente, destacando-se o AI Act enquanto iniciativa regulamentar;

iii) a continuação da agenda da sustentabilidade, onde continuará a existir uma extensa produção regulatória e aumento da atividade de supervisão;

iv) na preocupação com a resiliência operacional das instituições, nomeadamente, pela sua dependência de ecossistemas operacionais e tecnológicos complexos, sendo de destacar a legislação DORA.

De referir, por fim, o efeito que as crescentes tensões e incertezas geopolíticas trarão à já acentuada divergência regulamentar entre os vários blocos económicos e o efeito das alterações das condições económicas no reforço da regulação que visa a proteção dos clientes bancários.

 

5. As alterações climáticas continuarão na agenda dos bancos como um elemento a aperfeiçoar em 2024. 

i) Os bancos irão desempenhar um papel crucial na transição para uma economia mais verde, exercendo uma influência significativa na forma como a sociedade enfrenta os desafios ambientais. Num contexto de crescente consciencialização sobre a urgência das questões climáticas, os bancos têm de gerir os riscos financeiros associados às mudanças climáticas e ser agentes promotores da transição da sociedade para práticas sustentáveis.

ii) De acordo com um recente inquérito do BCE, nos próximos 12 meses, os bancos antecipam uma política de crédito mais restritiva devido aos riscos climáticos para empréstimos a empresas "brown", e, ao mesmo tempo, uma maior abertura para o financiamento para empresas verdes ou em transição para a descarbonização. 

iii) Nos próximos anos, os riscos específicos da transição climática e os riscos físicos irão desempenhar um papel crescente nas decisões de crédito e investimento. Sabendo da importância das classificações ESG para a decisão, a Comissão Europeia propôs este ano um novo regulamento para os ratings ESG com o objetivo de melhorar a transparência das metodologias e governação das agências que fornecem este tipo de ratings.

iv) Os fatores ESG estão a tornar-se cada vez mais importantes, tanto para investidores como para clientes. Os bancos irão continuar a adequar os seus produtos e serviços de acordo com os princípios ESG, reforçando a aposta na captação ou reforço da relação com empresas "verdes" ou em transição. 

v) Os reguladores continuarão a reforçar o enquadramento regulamentar associado à gestão de riscos climáticos. São esperados mais stress tests e novos requisitos que permitam aferir a sua resiliência aos impactos climáticos. Adicionalmente, é esperada uma melhoria substancial das divulgações em matéria de sustentabilidade: em 2024, os bancos já terão de divulgar o seu Green Asset Ratio e, a partir de 2025, terão de divulgar a estratégia, impactos, riscos e oportunidades referentes aos temas de sustentabilidade que sejam considerados materiais nos vários pilares E, S e G, seja para os próprios bancos ou para a sua cadeia de valor.

 

Os próximos tempos são, por isso, muito desafiantes, mas reúnem as condições de contexto para que o setor bancário aprofunde o processo de transformação em curso.

 

Este artigo foi escrito por Vitor Viana Lopes, líder do Setor da Banca.

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