Em um contexto de forte fragmentação de consumo e abundância de conteúdo, a dinâmica competitiva da indústria de mídia e entretenimento passa por uma transformação, marcada pela combinação entre inteligência de audiência multiplataforma, eficiência operacional com inteligência artificial e uma redefinição profunda do que o público entende como qualidade, conforme aponta a nova edição do estudo Tendências de mídias digitais 2026, da Deloitte. O levantamento mapeia os principais desafios estratégicos do setor, indicando caminhos para que as organizações construam um futuro mais resiliente.
Após décadas em que empresas de tecnologia transformaram o consumo de mídia – popularizando vídeos curtos gerados por usuários, personalização algorítmica e modelos de streaming por assinatura e publicidade – o diferencial competitivo deixa de ser apenas escala e distribuição. Em seu lugar, o engajamento qualificado, o domínio de dados de audiência e a capacidade de inovar com velocidade ganham protagonismo.
O estudo destaca que a própria definição de qualidade está mudando. Tradicionalmente associada a altos valores de produção e narrativas sofisticadas, a qualidade passa a ser medida cada vez mais pela experiência percebida pelo usuário. Identificação, relevância e personalização tornam-se fatores fundamentais, impulsionados por conteúdos de criadores e vídeos em redes sociais que oferecem imediatismo, diversidade e conexão direta com o público. Nesse contexto, o relatório aponta que fandoms (comunidades de fãs) se tornam ativos estratégicos, capazes de reduzir riscos de investimento ao conectar propriedades intelectuais a comunidades engajadas e ativas em múltiplas plataformas.
A ascensão de formatos curtos e seriados, como microsséries e microdramas, reforça essa transformação. Esses formatos ampliam o alcance e a frequência de consumo e funcionam como laboratórios de inovação, permitindo testar ideias, talentos e construir interesse antes de investimentos maiores. A expectativa é de que receitas com microsséries em aplicativos podem mais do que dobrar em 2026, refletindo o avanço desse modelo em um cenário de atenção fragmentada. De acordo com o relatório “TMT Predictions”, da Deloitte, o crescimento de receita das microsséries deve mais do que dobrar neste ano, atingindo US$ 7,8 bilhões, com os EUA respondendo pela metade da receita global.
A inteligência artificial (IA) generativa aparece como outro vetor decisivo dessa transformação. Ao reduzir barreiras de criação, a tecnologia permite que criadores independentes, estúdios e até usuários comuns produzam conteúdo em escala e com qualidade elevada. O estudo analisa que, para grandes organizações, o impacto tende a ser inicialmente incremental, acelerando processos, reduzindo custos e encurtando o tempo de lançamento de conteúdos. No entanto, a ampliação da oferta também eleva o nível de competição.
“A diferenciação passa a depender ainda mais de histórias fortes, propriedade intelectual relevante, confiança de marca e criatividade humana. A inteligência artificial também é fundamental na competição pela atenção do público, que exigirá combinar escala algorítmica com autenticidade e capacidade de descoberta eficiente”, analisa Ronaldo Fragoso, sócio-líder da indústria de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações.
O avanço da IA generativa também traz implicações regulatórias e desafios relacionados à autenticidade e à experiência do usuário. O estudo da Deloitte destaca que a possibilidade de produção massiva de conteúdo pode tanto impulsionar a inovação quanto sobrecarregar audiências e pressionar plataformas, ao mesmo tempo em que aumenta a probabilidade de respostas regulatórias, incluindo exigências de transparência e identificação do conteúdo gerado por IA. O “TMT Predictions” aponta que será preciso equilibrar a inovação com a moderação, já que vídeos gerativos sem controle podem desestabilizar modelos de negócios e acelerar a desinformação.
O estudo revela, ainda, a importância de as empresas desenvolverem a inteligência de audiência multiplataforma. Com consumidores transitando rapidamente entre redes sociais, serviços de streaming, TV, games e eventos ao vivo, é necessário compreender essa jornada completa, apesar das dificuldades para consolidar dados e construir uma visão unificada de seus públicos. Há fragmentação de informações, que limita a eficiência em engajamento, monetização e tomada de decisão e dificulta a conexão entre descoberta de conteúdo, recomendação e conversão.
“Fechar essa lacuna exigirá investimentos em infraestrutura de dados, governança, metadados e capacidades analíticas, além de parcerias estratégicas e atenção a questões de privacidade. Em contrapartida, os ganhos potenciais incluem maior eficiência em campanhas, melhor performance publicitária, promoção cruzada mais eficaz e uma compreensão mais sofisticada do comportamento do consumidor”, explica o sócio da Deloitte.
Diante desse cenário, o estudo destaca a necessidade de especialização, o uso de conteúdos de criadores como motores de inovação e o desenvolvimento de inteligência de audiência como ativo central. A recomendação é tratar a IA generativa não como experimento, mas como infraestrutura essencial, integrada a fluxos criativos, operacionais e analíticos. “A análise feita pela Deloitte reforça que o futuro da mídia será definido menos pela capacidade de produzir em escala e mais pela habilidade de entender, engajar e reter audiências em um ambiente cada vez mais fragmentado, dinâmico e orientado por dados”, conclui Fragoso.
Jeffrey Group
Assessoria de Imprensa