Por Luiz Eduardo Ganem Rubião, sócio-líder para o setor de Energy & Chemicals da Deloitte Brasil
A chamada indústria 4.0 promete transformar o setor industrial há anos — e agora esse momento chegou. Com a capacidade de capturar e integrar dados de diferentes instalações por meio de automação e análise, a manufatura e as operações inteligentes, também conhecidas como smart manufacturing ou fábricas inteligentes, vêm se consolidando como resposta eficaz a desafios persistentes relacionados à capacidade produtiva, competitividade e volatilidade do mercado.
Custos intangíveis na indústria 4.0
Estudos recentes indicam que empresas que adotam esse modelo tornam-se mais ágeis, produtivas e atraentes para talentos. Ao mesmo tempo, a implementação da manufatura inteligente ainda exige superar barreiras como a gestão de transformações complexas e a mitigação de riscos operacionais — o que tem levado líderes a investir não apenas em tecnologia, mas também em cibersegurança, capacitação da força de trabalho e estruturação organizacional para gerir mudanças.
Desafios do Brasil e caminhos para avançar
No Brasil, o cenário ainda apresenta desafios importantes. A maioria das empresas, especialmente médias e pequenas, tem baixa maturidade digital e enfrenta dificuldades para integrar tecnologias como ERP, internet das coisas (IoT) e análise de dados.
De acordo com levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), apenas 69% das indústrias brasileiras utilizam ao menos uma tecnologia digital — e, entre as pequenas empresas, esse índice cai para 42%. Além disso, apenas 7% das organizações utilizam mais de 10 entre 18 tecnologias mapeadas, o que revela uma capilarização tecnológica ainda incipiente e fragmentada.
Para reverter esse quadro, iniciativas já estão sendo tomadas. Segundo a pesquisa Agenda de Negócios – Volume 2: Tecnologias, da Deloitte, 59% das empresas se consideram em fase de desenvolvimento ou expansão de suas estratégias de digitalização, enquanto 14% afirmam estar em estágios avançados.
Entre os principais objetivos para se investir em digitalização estão a ampliação da produtividade dos profissionais (91%), redução de custos (69%), crescimento de receita (67%) e aprimoramento da experiência do cliente (66%), demonstrando um alinhamento estratégico entre tecnologia e geração de valor.
O levantamento reforça ainda que as organizações que se autoavaliam com maior nível de maturidade digital são justamente aquelas que adotam IA em mais atividades, destinam mais recursos a cloud e cibersegurança, e contam com políticas de governança em IA já implementadas ou em andamento. Esse conjunto de fatores configura um ambiente mais seguro, eficiente e preparado para capturar os benefícios da inteligência artificial de forma sustentável e estratégica.
Um ponto de atenção que vem ganhando maior importância é a localização física das soluções em nuvem adotadas pelas empresas. Conforme sanções internacionais se intensificam no mercado global, cresce a relevância de hospedar dados e sistemas em data centers baseados no próprio país onde os negócios estão sediados — o Brasil, em nosso caso.
Essa escolha estratégica contribui para mitigar riscos regulatórios, assegurar a conformidade com legislações locais — como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) — e reforçar a soberania sobre dados corporativos sensíveis.
Nesse cenário cada vez mais orientado por eficiência operacional, a ordem dos investimentos faz toda a diferença. A manufatura inteligente já ocupa lugar de destaque na agenda das empresas industriais, não apenas pelo ganho de eficiência, mas pela capacidade de gerar valor em múltiplas frentes. O avanço sustentável dessa transformação, no entanto, depende de uma base sólida de dados, de equipes preparadas e de decisões estratégicas sobre onde e como investir.
Mais do que adotar tecnologias emergentes, o diferencial competitivo estará em saber usá-las com inteligência e propósito.
Nesse contexto, a governança de dados assume papel central. À medida que as fábricas se tornam mais inteligentes, as organizações enfrentam um desafio que vai além da adoção de novas tecnologias: garantir uma base sólida e bem estruturada de dados. Esse movimento revela uma mudança estratégica significativa, na qual os dados deixam de ser um subproduto das operações para se consolidarem como o principal ativo da transformação digital.
Aqui, a governança deve ser compreendida em seu sentido mais amplo — abrangendo não apenas a organização, mas segurança, uso ético, integração, disponibilidade e valor estratégico dos dados. Sem processos bem definidos para coleta, tratamento e proteção das informações, a inteligência artificial corre o risco de operar com insumos inadequados — comprometendo tanto a eficácia dos sistemas quanto a qualidade das decisões baseadas em dados.
Essa é uma das principais conclusões da pesquisa 2025 Smart Manufacturing and Operations Survey, realizada pela Deloitte. O estudo mostra que, mais do que implementar inteligência artificial e automação, as empresas estão concentrando esforços na organização e na qualidade dos dados — uma etapa essencial para que qualquer inovação tecnológica gere resultados consistentes.
O levantamento contou com a participação de 600 executivos de grandes empresas manufatureiras com sede ou operações nos Estados Unidos, com respondentes dos setores industriais, de energia, químico, biofarmacêutico, automotivo e de bens de consumo, entre outros. Os resultados deixam claro que a maré da manufatura inteligente está mudando.
A maioria dos líderes entrevistados (92%) considera a manufatura inteligente o principal motor de competitividade para os próximos três anos. Esse reconhecimento se reflete nos investimentos: 78% das empresas já destinam mais de 20% de seus recursos em melhorias para iniciativas ligadas à indústria inteligente, como computação em nuvem, analytics, sensores e inteligência artificial. As áreas prioritárias incluem automação de processos, automação física e sincronização da produção — todas altamente dependentes de uma estrutura de dados robusta.
As empresas também vêm priorizando cada vez mais a redução de riscos operacionais, o aumento da agilidade e da produtividade, além da aceleração da inovação. Esses vetores destacam a importância de decisões orientadas por dados e da integração tecnológica na indústria.
Além disso, empresas que investiram em smart manufacturing relatam aumentos de até 20% na produção, 20% na produtividade dos colaboradores e 15% na capacidade produtiva liberada. Um ponto em comum entre essas organizações é o investimento prévio na construção de uma base analítica bem estruturada. Em outras palavras: a transformação digital começa com os dados.