Por Andre Gargaro, sócio de soluções de Enterprise Security e Eder de Abreu, sócio de soluções de Cyber Defense & Resilience da Deloitte Cyber
O mundo corporativo e todo o ecossistema de cibersegurança global voltaram a entrar em ebulição há algumas semanas. O motivo? A empresa americana Anthropic suspendeu o acesso do público global aos seus recém-lançados modelos de inteligência artificial (IA), o Claude Mythos Preview e o Claude Fable 5, desenvolvidos para mapear vulnerabilidade de forma ampla e veloz.
A suspensão por parte da companhia obedecia a uma decisão do governo dos Estados Unidos que proibiu o uso das IAs por cidadãos estrangeiros, alegando questões de segurança nacional. No entanto, mesmo antes disso, o Mythos - considerada a mais avançada tecnologia de IA já desenvolvida - já tinha seu uso restrito. Apenas as organizações pertencentes ao chamado Projeto Glasswing, tais como Amazon, Apple, Google e Nvidia, podiam usar a ferramenta para testar seus próprios sistemas e vulnerabilidades. Segundo a Anthropic, esse consórcio de empresas representa um "esforço para garantir a segurança dos softwares mais críticos do mundo".
As questões envolvendo o Mythos refletem como a IA está mudando rapidamente a dinâmica da cibersegurança não apenas como uma ferramenta de edição, mas também como vetor de risco. Isso porque em seus testes, o novo modelo da Anthropic já encontrou milhares de vulnerabilidades graves na segurança de sistemas operacionais e navegadores.
No anúncio do Glasswing, um alerta: "Dado o ritmo de avanço da IA, não vai demorar muito para que tais capacidades se proliferem, potencialmente sendo usadas por quem não tem o compromisso de usá-las de maneira segura." Fica claro o receio de que, com o acesso a uma IA tão poderosa, criminosos aumentem o ritmo e a severidade de ataques.
Assim, cria-se um cenário no qual o desafio está na velocidade e no volume com que as ameaças e os ataques passam a operar. Ou seja, o risco não está apenas no ataque em si, mas na rapidez com que as fragilidades são descobertas por defensores e por agentes maliciosos. E tanto a velocidade como a escala dos ataques precisam estar presentes nas novas estratégias de cibersegurança corporativas, mesmo elas ainda sendo incógnistas, já que não se sabe com precisão qual pode ser a quantidade ou a velocidade de ameaças.
Esse novo cenário em que a velocidade importa exige redesenhar processos, redimensionar equipes e repensar as aplicações de tecnologia. A estratégia desenvolvida por especialistas da Deloitte envolve um processo faseado, com base em um framework de "Do Now/Do Next/Do Later" (fazer agora/fazer na sequência/fazer depois).
A etapa do "Do Now" envolve determinação da superfície de ataque, gerenciamento de mudanças emergenciais e eliminação de lacunas nos processos de patch management.
Já a fase seguinte amplia o gerenciamento de vulnerabilidades para volumes maiores, focando em softwares para sistemas críticos, integração da segurança desde o início do desenvolvimento, aprimoramento na gestão de riscos de terceiros e análise do próprio código orientada por IA.
Na etapa "Do Later", a IA é usada para a transformação das operações de segurança, implementação de testes de intrusão anônimos, preparação para respostas a múltiplos incidentes e consolidação de infraestrutura resilientes.
Essa estratégia reduz exposições e cria um roadmap para transformar a governança de riscos de uma maneira mais global. Empresas dispostas a implementar essas mudanças têm uma nova chance de compreender que a segurança digital não é apenas um custo ou uma simples defesa, mas uma habilitadora de crescimento, proteção de ativos estratégicos e um meio de conquista de novos mercados.
São companhias que estarão mais preparadas para lidar com o cenário de incertezas, visto que além das duas incógnitas já mencionadas, relativas ao volume e à velocidade trazidas pelas novas tecnologias, há também uma terceira: a geopolítica.
As recentes restrições às IAs da Anthropic reforçam como o ciberespaço é uma questão de segurança nacional – e um campo de batalha estratégico comparável à proteção de infraestruturas críticas, como hidrelétricas e aeroportos. Para se ter uma ideia, basta imaginar o que aconteceria se uma distribuidora de energia fosse atacada ciberneticamente. Além disso, podemos ver em breve novos modelos de IA desenvolvidos pela China, Rússia e outros países com influência no xadrez geopolítico global.
Essa nova realidade digital exige que executivos de segurança acelerem suas ações em todos os aspectos da cibersegurança. No entanto, essa responsabilidade não pode ficar restrita às equipes técnicas. É preciso que ela se torne uma prioridade compartilhada entre o C-level. A segurança digital deve ser pauta central e estratégica para CROs, CTOs, CIOs, CEOs e conselho.
Todos precisam ter ciência de que um diferencial competitivo passa tanto por adotar ferramentas de IA com velocidade quanto por combinar inovação e resiliência. Ou seja, é preciso que iniciativas de cyber estejam integradas à estratégia de negócios, especialmente em um cenário em que IA e segurança passam a ser indissociáveis.
No entanto, colocar essas medidas em práticas traz desafios, como restrições orçamentárias ou revisão de softwares antigos, nos quais são necessários testes rigorosos para evitar conflitos e indisponibilidades nas operações.
Muitas dessas barreiras estão refletidas nos dados da pesquisa global da Deloitte, que mostra que 85% das organizações se dizem confiantes em suas estratégias de cibersegurança, mas apenas 70% afirmam ter, de fato, implementado as ações necessárias.
Esse descompasso se torna ainda mais crítico em um cenário no qual quase 75% das organizações já incorporam ferramentas de IA em seus programas de cyber, acelerando a identificação de vulnerabilidade e ampliando a superfície de exposição.
Para vencer esse e outros desafios em uma nova realidade digital permeada de incógnitas, é preciso, sim, fortalecer os fundamentos já existentes da proteção corporativa, com governança, monitoramento contínuo e defesa em profundidade. Mas também é preciso ir além e implementar frameworks como o "Do Now/Do Next/Do Later". Assim, priorizar a segurança digital abre caminhos para que as organizações avancem na disputa corporativa e no novo ritmo do ambiente digital.