Bookmark Email Imprimir esta página

Artigo de opinião

"ANEOP e Deloitte desenvolvem nova abordagem do sector da construção"
por Dr. António Manzoni - ANEOP

O ponto de partida

A Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas (ANEOP) e a Deloitte estabeleceram uma parceria para estudar e perspectivar a evolução do sector nos próximos dois anos. Trata-se de uma colaboração entre entidades diferentes, a ANEOP agrupa e representa as maiores empresas do sector e a Deloitte é uma consultora de referência, mas estamos cientes que essa diversidade não deixará de contribuir para uma melhor avaliação do papel das empresas e da construção em Portugal.

As grandes empresas de construção, em Portugal e no Mundo, estão numa fase de grande transformação e a iniciar ou a consolidar processos de diversificação, de internacionalização e de concentração, pretendemos identificar com precisão estas mudanças e, para tal, começámos por recolher a opinião dos principais responsáveis das maiores empresas. O estudo ainda está em curso, estamos na fase do brainstorming e das incertezas cruciais, mas, ainda assim, existe a convicção generalizada que estamos a analisar um sector em “ebulição” e em rápida transformação, tanto em termos macro como micro, daí a necessidade de uma nova abordagem do conceito de construção. Efectivamente, como resultado das alterações profundas na sociedade, a actividade da construção mudou e está a evoluir muito rapidamente

Assim, o somatório dessas alterações quantitativas e qualitativas obriga a reequacionar a actividade, a redefinir o seu objecto e o posicionamento das empresas para permanecerem competitivas num sector tradicional em transformação.

A abordagem tradicional

As Nações Unidas classificam a construção como a actividade económica directamente envolvida na criação, renovação, reparação e extensão dos activos físicos em forma de edifícios, melhoramentos fundiários e obras de engenharia, tais como, entre outras, estradas, pontes. Esta definição clássica corresponde à visão tradicional e restrita da construção.

Nesta avaliação “restrita”, a construção deve ser considerada uma actividade industrial, na medida em que utiliza matérias-primas que transforma em produtos finais, edifícios e infra-estruturas. Mas sempre existiu a sensação e a convicção de que as fronteiras da construção extravasavam as da indústria. Efectivamente, as suas actividades atravessam o conjunto dos sectores, primário, secundário e terciário, e incluíam a extracção de matérias-primas, exclusivamente utilizadas na construção, a produção industrial de bens e os serviços indispensáveis à execução das obras, vendas, manutenção e utilização ao longo de toda a vida útil da estrutura.

No entanto, a forma tradicional de medição do sector só incorpora a componente industrial e, assim, deixa de lado o seu contributo directo para a qualidade de vida e o ambiente.

A perspectiva alargada

Ora, a construção é muito mais que o acto de construir em si. Desde logo, deve incluir o conjunto das actividades que a montante e a jusante são indispensáveis para a construção, ou seja, o conjunto de serviços e de produtos que só se comercializam porque estão integrados no processo construtivo, como acontece, por exemplo, com os estudos prévios e os projectos de arquitectura, engenharia, fiscalização, com os materiais de construção e todos os serviços associados à promoção imobiliária, ao marketing e às vendas. Mas, com a globalização e o novo paradigma económico do desenvolvimento sustentado, a actividade da construção não deve centrar-se, apenas, no produto da construção, mesmo que este seja considerado numa perspectiva mais ampla, que englobe o conjunto de actividades correlacionadas a montante e a jusante, mas deve expandir-se de forma incluir a “gestão do conjunto do stock edificado”.

Esta “nova visão” alargada da construção, também designada como abordagem “holística”, que inclui o acto de construir e o stock edificado, tem duas consequências. De um ponto de vista macroeconómico, a construção deixa de ser uma actividade industrial típica, um sector produtor de casas, de locais de trabalho ou de infra-estruturas, e transforma-se numa actividade multi-disciplinar criadora e gestora da riqueza imobiliária, ou seja, mantém as suas características produtivas de criação de novos activos, mas, simultaneamente, adquire a dimensão da gestão da riqueza imobiliária ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos edificados.

Entretanto, do ponto de vista social, o objecto da construção centra-se na melhoria da qualidade de vida, logo os novos produtos construídos devem ser adequados às necessidades e integrar-se de forma eficiente no edificado existente. Numa perspectiva microeconómica, as empresas podem alargar o seu espectro de negócio e apostar na prestação de serviços associados ao edificado.

Na perspectiva alargada, a construção é, como referimos, muito mais do que o acto de construir propriamente dito, pode ser entendida como um conjunto alargado de actividades que contribuem para responder a um dos principais desafios da economia e da sociedade, a saber, a produção e a gestão dos modos de vida e das condições ambientais do conjunto da população. Assim, o objectivo principal da construção não é a mera produção de estruturas, de habitação, de locais de trabalho ou de obras de engenharia civil.

No essencial, trata-se de construir e garantir a eficiência dessas estruturas ao longo de todo o seu ciclo de vida, ou seja, a sua produção, fruição e conservação até à respectiva demolição.

Neste sentido, uma abordagem alargada da construção introduz uma outra visão temporal do sector e dos seus desafios e, simultaneamente, corresponde à terciarização da actividade, com a passagem da óptica estrita da produção para a prestação de serviços e a gestão de activos. Na realidade, o valor da construção para a economia resulta do facto de ela ser um motor do crescimento e um catalisador para que as outras actividades possam fazer bem. De facto, o funcionamento eficiente da construção assegura a “qualidade de vida”, garante uma boa envolvente para os negócios e as necessárias infra-estruturas para responder às necessidades quantitativas e qualitativas das famílias e das empresas.

Como se compreende, a construção não deve ser encarada, apenas, como uma actividade produtora de bens mas, também, como parte do processo de criação e manutenção da envolvente construída, “da qualidade e dos modos de vida” e, daí, a sua importância estratégica e o seu potencial de crescimento a prazo, porque o desenvolvimento implica, necessariamente, a melhoria da qualidade de vida e, logo, da envolvente edificada. Assim sendo, valorizar a construção, tendo em conta a sua importância no desenvolvimento sustentado, deve ser uma prioridade nas agendas governamentais nos próximos anos.