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Energia em troca de créditos de carbono

Mecanismo estabelecido pelo Protocolo de Kyoto representa grande oportunidade às empresas brasileiras em projetos de geração de energia 

 Por Adriano de Sousa 

 Gerente da área de Corporate Finance da Deloitte 

 Participar do mercado de créditos de carbono estabelecido pelo Protocolo de Kyoto pode ser mais fácil e oportuno do que imaginam os executivos de boa parte das empresas brasileiras. Siderurgias, indústrias de papel e celulose, empresas do setor de transporte, usinas de açúcar e álcool e aterros sanitários representam alguns dos setores com maior potencial para lucrar com a venda de créditos em troca da implementação de projetos ambientalmente sustentáveis. 

Em vigor desde fevereiro, o Protocolo de Kyoto prevê que os 40 países industrializados que compõem um grupo denominado “Anexo I” reduzam em 5,2% a emissão de gases poluentes no período entre 2008 e 2012, tendo como referência os contingentes emitidos no ano de 1990. Entre os meios previstos para o cumprimento dessas metas, está o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que admite o envolvimento de países em desenvolvimento, como o Brasil. Pelo MDL, as empresas sediadas em países do Anexo I, a maior parte delas, na Europa, podem abater parte de suas responsabilidades de reduzir a emissão de gases por meio da compra de créditos de carbono. Esses créditos são gerados por empresas de países situados fora do Anexo I e que, portanto, não têm obrigações a cumprir quanto à redução de poluentes. 

Dessa forma, uma indústria brasileira de qualquer setor que implemente um projeto que comprovadamente reduz a emissão de gases causadores do efeito estufa, ao longo de suas tarefas de produção, poderá obter financiamento de corporações sediadas nos países do Anexo I, oferecendo, como contrapartida, os créditos de carbono gerados internamente por meio desse processo. 

Entre as muitas oportunidades abertas aos empresários brasileiros nessa área, está a possibilidade de reutilização de gases ou resíduos resultantes de processos industriais para a geração de energia, caso que se aplica a siderurgias, aterros sanitários, indústrias sucroalcooleiras e empresas ligadas ao agronegócio, da agricultura à pecuária. Nessa corrida em busca de compradores de crédito, o Brasil saiu na frente de seus principais adversários – como a China e a Índia – por meio do Projeto Nova Gerar, primeiro aprovado em todo o mundo pelo Conselho Executivo do Protocolo de Kyoto, tendo como meta a redução de emissões de metano dos aterros sanitários de Nova Iguaçu (RJ). 

No entanto, o potencial desse mercado é muito maior, se estendendo a projetos que visam a geração de energias renováveis – solar, eólica e de biomassa – ou a redução do consumo de combustíveis poluentes a partir da melhoria da eficiência energética em plantas industriais. Por parte das empresas do setor de transportes, por exemplo, o MDL pode se efetivar pela substituição dos combustíveis convencionais por outros menos poluentes. 

Dessa forma, mais do que demonstração de consciência ecológica, as ações que contribuem para a preservação do meio-ambiente podem representar, para muitas empresas brasileiras, uma oportunidade real de converter respeito à natureza em geração efetiva de capital e na alavancagem de projetos ambientais em pauta. A ecologia e os negócios ficarão cada vez mais próximos a partir de agora.